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Inteligência artificial no serviço público: como a IA pode melhorar a produtividade e a análise de processos?

A inteligência artificial no serviço público já deixou de ser um tema distante da realidade da Administração Pública.

Hoje, ferramentas de IA generativa começam a ser aplicadas em rotinas de organização de demandas, análise de documentos, elaboração de minutas, triagem de processos, cruzamento de informações e apoio à produtividade de servidores, magistrados e gestores públicos.

Esse avanço acompanha um movimento mais amplo no Brasil. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028 prevê R$ 23 bilhões em investimentos para transformar o país em referência no uso ético, sustentável e eficiente da IA, com destaque para aplicações no setor público.

Além disso, o eixo voltado à melhoria dos serviços públicos inclui iniciativas de experimentação de soluções com IA aplicadas a políticas públicas e serviços digitais.

No Poder Judiciário, esse debate também ganhou força. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, a IA generativa já é utilizada em mais de 45% dos tribunais brasileiros, especialmente em atividades como análise, sumarização e produção de textos.

Foi justamente sobre esse cenário que o Podcast Projeto Caminho Certo recebeu a Dra. Lígia Covre da Silva, assistente judiciária do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, para uma conversa sobre os impactos da IA na rotina do servidor público, com foco em produtividade, responsabilidade, segurança da informação e análise de processos. Confira a seguir!

O que significa usar inteligência artificial no serviço público?

Quando se fala em IA na Administração Pública, muitas pessoas ainda imaginam algo extremamente técnico, distante ou restrito a profissionais de tecnologia. No entanto, na prática, a inteligência artificial pode funcionar como uma ferramenta de apoio ao trabalho cotidiano.

Durante o episódio, a Dra. Lígia explicou que as IAs atuais se tornaram mais acessíveis porque passaram a funcionar por meio de interfaces conversacionais. 

Segundo ela, “as IAs de hoje vieram para se tornar coisas de escritório e não mais coisas de laboratório”. Ou seja, em vez de exigir conhecimento avançado em programação, muitas ferramentas permitem que o usuário interaja por meio de comandos em linguagem natural.

Na rotina do serviço público, isso pode significar pedir a uma ferramenta que:

  • Resuma um processo
  • Organize argumentos
  • Identifique inconsistências
  • Sugira uma estrutura de relatório
  • Auxilie na construção de uma minuta
  • Ajude a classificar demandas por urgência e tema

Por isso, o debate não deve partir da ideia de substituição do servidor, mas de apoio à atividade humana. Como destacou a convidada, a IA “depende de orientação” e precisa do conhecimento técnico de quem a utiliza.

A IA pode substituir o servidor público?

Uma das principais barreiras para o uso da inteligência artificial no serviço público é o receio de substituição.

Esse medo aparece tanto entre servidores quanto entre profissionais do Direito, especialmente quando a ferramenta demonstra capacidade de produzir textos, resumos e análises em poucos segundos.

No entanto, a Dra. Lígia reforçou que a IA não substitui o conhecimento jurídico, administrativo ou institucional do servidor. Pelo contrário, ela depende desse repertório para entregar boas respostas.

Nas palavras da convidada: “Você não vai ser substituído porque ela precisa do seu conhecimento, do seu repertório”.

Essa é uma questão importante. Afinal, a IA pode ajudar a executar tarefas, mas quem define o caminho, valida a resposta, identifica riscos e assume a responsabilidade pela decisão continua sendo o profissional humano.

Portanto, servidores com maior experiência, repertório e capacidade crítica podem obter resultados ainda melhores com essas ferramentas, desde que saibam orientar a IA de maneira adequada.

Como a IA ajuda na produtividade do setor público?

A produtividade foi um dos principais pontos do episódio. Isso porque a Administração Pública lida com grande volume de prazos, documentos, procedimentos, e-mails, petições, relatórios e processos.

Nesse contexto, a inteligência artificial no serviço público pode reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas e liberar o servidor para atividades que exigem análise mais qualificada.

A Dra. Lígia citou exemplos práticos de uso em gabinetes e cartórios, como “minutas, resumo do processo” e apoio para trazer “clareza para algumas argumentações”.

Além disso, ela também explicou que, na área administrativa, a IA pode ajudar na produção de relatórios, planilhas, análise de dados, cruzamento de informações, organização de estruturas e automatização de fluxos de trabalho.

Um exemplo apresentado no episódio envolveu uma decisão liminar urgente relacionada a uma vaga em UTI. A convidada contou que, com um agente especializado no Claude, conseguiu estruturar a minuta em aproximadamente 30 minutos. Segundo ela, a ferramenta “imediatamente identificou” a urgência do caso e ajudou a elaborar a minuta nos termos utilizados pelo magistrado.

Esse tipo de aplicação mostra que a IA pode contribuir para dar mais velocidade a tarefas urgentes, desde que exista personalização, contexto e revisão humana.

IA em processos administrativos e judiciais

A inteligência artificial também pode apoiar a análise de processos administrativos e judiciais, especialmente quando há grande volume de documentos e argumentos.

Nesses casos, a ferramenta pode auxiliar na leitura estruturada do processo, no mapeamento argumentativo, na comparação de documentos e na identificação de inconsistências.

Durante a conversa, a Dra. Lígia afirmou que “o grande auxílio da IA é justamente em processos volumosos”.

Segundo ela, a ferramenta ajuda a tornar a análise mais eficiente, mas exige técnica. Isso ocorre porque, em documentos longos, a IA pode dar mais atenção ao começo e ao fim do material e perder informações relevantes no meio.

Por isso, a convidada alertou que, ao lidar com processos extensos, é necessário dividir o conteúdo em blocos e reforçar comandos ao longo da análise. “Se ela perder uma informação no meio do caminho, ela pode alterar completamente a conclusão daquela análise”.

Na prática, isso significa que o servidor não deve simplesmente inserir um processo inteiro em uma ferramenta e esperar uma resposta definitiva. É preciso conduzir a análise, orientar a IA, conferir os resultados e validar tecnicamente cada conclusão.

Mapeamento de argumentos, provas e inconsistências

Entre os usos mais relevantes da IA em processos administrativos está o mapeamento argumentativo. A ferramenta pode comparar alegações de diferentes partes, organizar pontos controvertidos, indicar documentos relevantes e sugerir perguntas para perícias ou diligências.

No episódio, a Dra. Lígia afirmou que pedir um mapeamento argumentativo “já é uma ajuda absurda”. Ela também citou a possibilidade de solicitar quesitos para perícia, conforme o tipo de prova necessária no processo.

Outro uso prático envolve a identificação de inconsistências. A convidada explicou que utiliza comandos como “aponte inconsistências” para comparar depoimentos, manifestações e decisões.

Segundo ela, magistrados também têm usado a IA para verificar inconsistências em sentenças e reduzir riscos de embargos de declaração.

Contudo, esse uso deve ser sempre entendido como apoio. A inteligência artificial no serviço público pode indicar caminhos, mas não substitui a análise jurídica, administrativa ou probatória realizada por quem tem responsabilidade sobre o processo.

Segurança da informação: o que exige atenção?

Outro ponto de atenção importante abordado no episódio é que o uso de inteligência artificial no serviço público exige cuidado redobrado com segurança da informação, proteção de dados e sigilo.

Afinal, processos administrativos e judiciais podem conter dados pessoais, documentos sensíveis, informações funcionais, laudos, comprovantes, declarações e elementos protegidos por sigilo.

Durante o episódio, a Dra. Lígia foi direta ao abordar esse ponto: “Quando você não paga algo, você é o produto”. A frase resume um alerta importante sobre o uso de ferramentas gratuitas ou mal configuradas para tratamento de informações sensíveis.

Ela explicou que, se o servidor utilizar uma IA fora do ambiente institucional, deve evitar inserir processos sem conta adequada, sem configuração de privacidade e sem desabilitar o uso dos dados para treinamento do modelo. Caso contrário, pode haver risco de exposição de informações sigilosas.

Além disso, a convidada destacou a importância da anonimização. Segundo ela, o próprio Tribunal de Justiça tem oferecido ferramentas para retirar nomes e informações sensíveis antes que determinados conteúdos sejam utilizados em IA.

Por que a capacitação é indispensável?

A adoção de inteligência artificial no serviço público não depende apenas da contratação de ferramentas, pois exige letramento, capacitação, protocolos e mudança cultural.

A Dra. Lígia explicou que a maior dificuldade inicial é vencer a resistência. Depois, surgem desafios relacionados à compreensão da tecnologia, dos comandos, das ferramentas e, principalmente, do repertório necessário para formular boas solicitações.

Segundo ela, “a capacitação que vai conseguir fazer com que todo mundo entenda como usar, como equilibrar, onde pode, onde não pode, corrigir”. Essa frase sintetiza um ponto interessante e importante, que a IA não deve ser usada de maneira improvisada, especialmente no setor público.

Então, o servidor precisa entender como formular prompts, inserir contexto, anonimizar informações, revisar respostas e identificar limitações da ferramenta.

Além disso, também é necessário compreender que a IA pode errar, alucinar, omitir detalhes ou apresentar respostas aparentemente convincentes, mas tecnicamente incorretas.

O papel humano continua indispensável

Embora a IA possa acelerar tarefas, a decisão continua sendo humana. “O convencimento é seu, continua sendo seu”, afirmou a Dra. Lígia.

Esse entendimento é fundamental para evitar o uso automatizado e acrítico da ferramenta. A IA pode apoiar redação, organização e análise, mas não deve assumir o papel de decidir, julgar, deferir, indeferir ou validar conclusões sem supervisão técnica.

Além disso, a convidada explicou que a curadoria humana deve ser contínua. Quando a ferramenta entrega uma resposta ruim, o usuário precisa corrigir, orientar e devolver feedback. Caso contrário, o uso tende a se tornar menos qualificado.

Portanto, o servidor público da era da IA precisa desenvolver novas competências, como curiosidade, pensamento crítico, capacidade de formular boas perguntas, domínio de contexto e responsabilidade sobre o uso da informação.

Como começar a usar IA no serviço público com responsabilidade?

Para quem deseja iniciar o uso da inteligência artificial no serviço público, a recomendação da Dra. Lígia é verificar primeiro se o órgão já oferece alguma ferramenta institucional. Isso reduz riscos e permite que o servidor comece em um ambiente mais seguro.

Depois, o ideal é iniciar com tarefas simples, conversar com a ferramenta, explicar a própria rotina e pedir sugestões de apoio. A convidada resumiu esse primeiro passo de forma prática: “perde o medo, entra lá na IA e começa a conversar com ela”.

Também é importante evitar um erro comum, inserir um documento e esperar que a IA “faça milagre”. Segundo a Dra. Lígia, é necessário dar contexto, explicar o objetivo e conduzir a ferramenta.

Em outras palavras, o bom uso da IA depende menos de comandos prontos e mais de clareza, repertório, responsabilidade e revisão.

Quais impactos a IA pode gerar para o cidadão?

O uso adequado da inteligência artificial no serviço público pode beneficiar não apenas servidores e órgãos públicos, mas também o cidadão. Quando rotinas são otimizadas, processos podem tramitar com mais organização e determinados serviços podem se tornar mais ágeis.

No episódio, a Dra. Lígia destacou que, “só pelo fato do servidor já conseguir desaguar o processo, isso já afeta o cidadão, porque há uma celeridade”.

Além disso, ela citou a possibilidade de criar ferramentas capazes de explicar informações processuais em linguagem mais simples, facilitando a compreensão por parte do usuário do serviço público.

Assim, a IA pode contribuir para aproximar a Administração Pública da população, desde que seja usada com transparência, segurança e responsabilidade.

Inteligência artificial no serviço público exige responsabilidade

A inteligência artificial no serviço público representa uma oportunidade concreta para melhorar produtividade, organização e eficiência. No entanto, ela não pode ser tratada como solução automática para todos os problemas da Administração Pública.

Como ficou claro no episódio do Podcast Projeto Caminho Certo, a IA pode auxiliar em minutas, resumos, triagens, relatórios, análise de documentos e processos volumosos. Porém, seu uso exige capacitação, anonimização de dados, curadoria humana, protocolos de segurança e consciência sobre seus limites.

A tecnologia chegou para ficar, mas o papel do servidor continua essencial. Afinal, é o conhecimento humano que orienta a ferramenta, valida as respostas e garante que a inovação seja aplicada de maneira ética, segura e compatível com o interesse público.

Para entender melhor como a IA pode ser aplicada na rotina do setor público, assista ao episódio completo do Podcast Projeto Caminho Certo com a Dra. Lígia Covre da Silva: 

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